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Os Pinzan, pioneiros em Painçandu e Cianorte

21.07.2017

A mudança de uma terra fértil para outra mais fraca assustou o pioneiro. Mas ele soube reverter, alcançar altas produtividades e se tornar modelo

Acostumado com o solo vermelho e fértil de Paiçandu, próximo a Maringá, para onde se mudou com os pais quando era criança, o pioneiro José Pinzan quase entrou em depressão quando plantou milho no meio do cafezal, em Cianorte, e não deu sequer espiga, conta Carlos, um de seus cinco filhos. Sem saber o que fazer com a terra fraca, queria vender tudo e ir embora.

Foram seus pais, Luiz e Tereza, que, ao visitá-lo, tiraram a ideia da sua cabeça. Incentivado a mudar a história de seu sítio, começou a adubar o cafezal com esterco e palha de café. Em pouco tempo, transformou seu lote, alcançando altas produtividades e se tornando modelo. Só em 1972 é que surgiu o adubo na região e José foi um dos primeiros a usar.

A família Pinzan se mudou para Cianorte em 1967, mas José veio antes, em 1965, para derrubar a mata, plantar café, culturas de subsistência e construir a casa. Os cinco alqueires foram adquiridos por José e seu irmão Roberto direto da Companhia Melhoramento Norte do Paraná em três prestações, pagas com o que ganhavam colhendo café em Terra Boa. Por conta disso, o primeiro ano eles passaram comendo mandioca e peixe, que conseguiam pescar.

José e a esposa, Elídia, tiveram uma vida sofrida. Levantavam bem antes de o dia clarear. Enquanto o pai ia tirar leite, a mãe fazia café. Quando o pai saia, a mãe limpava a casa, cuidava das crianças, lavava roupa e subia com o almoço pronto para ajudar, lá pelas 10 horas. Às quatro da tarde deixava José ainda trabalhando na roça até escurecer e descia para recolher os animais, lenha, ovos e a roupa, banhar as crianças e preparar o jantar.

Com 10 anos todos começaram a trabalhar nos tratos e colheita do café. Mas bem antes disso já limpavam tronco, apartavam bezerros, recolhiam a lenha, além de ir para a escola. A família é que dava conta do serviço. Quando começou a expandir a área, passou a trabalhar com porcenteiros.

Hoje a família tem 37 alqueires em Cianorte com soja, milho e café. Pedro, o mais velho, ficou com os primeiros cinco alqueires, morando na mesma casa que foi dos pais. Rosangela se mudou para Maringá e os outros três irmãos, Cláudio, Amaury e Carlos, possuem 32 e arrendam mais 70 alqueires. Os Pinzan somam mais de 100 pessoas, desde Luiz. José tem cinco filhos, 10 netos e três bisnetos. A preocupação é com a sucessão. Os três sócios têm seis filhas e tanto elas quanto os genros já têm suas profissões. Mas, dois sobrinhos, um filho de Pedro e outro de Rosangela, devem continuar na atividade.

Chegada em Paiçandu

De Presidente Venceslau, em São Paulo, onde plantavam algodão, os avós de Carlos, Tereza e Luiz Pinzan, vieram para o Paraná em 1944, com os seis filhos, entre eles José. Venderam tudo que possuíam e compraram cinco alqueires em Paiçandu, com mata, para formar café. Além das 8 mil covas da família, cuidavam de mais oito mil covas de outro produtor. Andavam oito quilômetros para ir trabalhar.

Quando chegaram, nos primeiros dias dormiram numa tenda, depois construíram um rancho de palmito até finalizarem a casa, feita com tábuas cerradas por eles com um traçador. A serraria era longe e não tinham dinheiro. Comiam o que produziam: arroz, feijão, milho, mandioca e carne de caça. Anos depois começaram as criações.

Dessa época, o que mais José lembrava-se, diz Carlos, era dos mosquitos. Tinha tanto que precisavam amarrar um pano encobrindo quase todo rosto e comiam com uma mão e abanavam com a outra, senão acabavam engolindo algum mosquito.

Outro período que marcou foi o da Segunda Guerra Mundial. Era difícil comprar as poucas coisas que não produziam: sal, querosene e açúcar. Era tudo contado. Como o bisavô de Carlos e um tio-avô foram para a guerra, tinham certos privilégios na compra, mas tudo era bastante restrito e precisava ter um documento autorizando. O pai de José não foi porque tinha filho pequeno.


Polenta

José odiava vaca e mais ainda quando tinha que tirar leite. Tudo por causa da Polenta, a vaquinha da família. Para poder tirar leite, tinha que amarrar as pernas e o rabo da vaca, se não quisesse ser derrubado ou levar uma lambada nas costas.

Mas era só jogar a corda nas pernas que a Polenta deitava. E aí começava a briga dos dois. Nada fazia Polenta levantar, nem colocando fogo do lado. “Isso não é para mim”, vivia dizendo.


Travessuras a quatro

Os irmãos Pedro, Cláudio, Amaury e Carlos eram muito unidos e comparsas nas artes. Gostavam de pegar a bicicleta do pai e ficar descendo a ladeira que havia no sítio. Um dia, quando Pedro descia a ladeira com o último, quis fazer gracinha para assustar o irmão, que gritava “freia”. Só que quando freou, a bicicleta deslizou e eles bateram com tudo na porteira. A brincadeira valeu arranhões por todo lado e um mês sem bicicleta.

Como a casa ficava cheia para ver televisão e todo mundo tinha o costume de tirar os sapatos e deixar na porta, os quatro irmãos enchiam os sapatos de cola. Também iam pelas trilhas por onde o pessoal passaria e amarravam arames próximo ao solo para que tropeçasse.

Em outra feita, os quatro viram o vizinho saindo ao cair da tarde para ir ao terço e sabiam que voltaria tarde. Junto com mais três amigos, rolaram um toco pesado de dentro do cafezal bem no meio da trilha que sabiam que o vizinho passaria com a bicicleta. Às quatro horas da manhã foram acordados pelo pai com a cinta e tiveram que rolar o toco em quatro, tirando-o do caminho.

Café, futebol e Elídia

José tinha três paixões na vida – a esposa, Elídia, o café, já que terra boa era só a que dava para plantar a lavoura, e o futebol. Gostava tanto que além de ter um time no sítio, construiu um campo em 1973. Mas enquanto a maioria era feita no enxadão na época, o dele foi aplainado com trator que locou para isso. Faziam parte do time de futebol da família os filhos, os empregados e alguns vizinhos, colecionando troféus de torneios e de campeonatos de várzea.

Todo sábado e domingo tinha jogo. Era após o almoço, mas José já levantava cedo e começava a maratona de encher bola, arrumar o enfardamento, chuteiras e tudo mais. Dava uniforme completo e se o jogador fosse bom, ia buscar em casa. O caminhão que usava no transporte da produção e para frete era o ônibus do time.

Em 1970, José instalou a rede elétrica e comprou uma televisão por causa da Copa Mundial de Futebol. Pegava mal e era em preto e branco, mas, toda vizinhança e a família se amontoava para ver os jogos, assim como as novelas.

Geada ajudou a crescer

O pós-geada de 1975 foi o período em que mais cresceu. José comprou cafezais abandonados, chegando a 26 alqueires. Para quem o ano era de baixa produção, a perda com a geada foi grande. Mas quem, como José, acabará de sair de uma safra cheia e estava com a tulha cheia, a alta de preços ocorrida na sequência rendeu muito dinheiro. Só em Cianorte ele produziu mais de 700 sacas em coco. A tulha foi pequena para tanto café.

José comprou um motosserra e recepou o cafezal. Deu trabalho, mas tudo virou um monte de lenha que durou por muito tempo amontoado no quintal. Aproveitando que a área ficou aberta, José alugou o trator do vizinho e puxou todas as toras que ainda permaneciam no meio do cafezal e levou a uma serraria. Com a madeira, construiu uma casa e uma tulha novas. Os filhos, principalmente Amaury, com 12 anos na época, ajudaram o pai a construir.

Mas 1975 foi também um período de muita preocupação. Não por causa da geada, mas por problemas de saúde. Este foi o ano em que a avó dos cinco irmãos faleceu e que Amaury teve meningite. Depois do velório, ao chegar em casa, Amaury, com 13 anos, queimava de febre e não havia o que fizesse baixar. Preocupados, os pais levaram ao médico e foi diagnosticado meningite.

Na época, não havia muito que fazer. Amaury foi desenganado. Em desespero, os pais prometeram que se vivesse, o levariam a Aparecida do Norte. Quando voltou curado e sem qualquer sequela para casa, os médicos não acreditaram.

Serão extra

Em 1983, para dar conta da grande colheita de café, José, em sociedade com um vizinho, montou uma máquina de beneficiar e um secador de café. Como choveu muito naquele ano, no dia que terminaram a instalação do secador, José disse aos filhos que todos colheriam durante o dia e secariam o café de noite, alternando quem ficaria de plantão.

Amaury conta que depois de trabalhar o dia inteiro de pedreiro, enquanto outros colhiam, passou a noite cuidando do forno e só foi dormir depois das 11 da manhã, após ensacar todo o café. Mas o pior foi aguentar o frio de madrugada. E como calcularam errado a quantidade de madeira que consumiria no forno, tiveram que recolher e cortar lenha de madrugada.
“Quando terminamos, parecíamos mendigos imundos e prostrados de cansaço”, afirma. Depois da primeira noite, José desistiu de dobrar a jornada.

José sabia que a mecanização era o caminho. Já em 1972 comprou um trator tobata para ajudar no serviço do sítio. E em 1976 comprou um trator maior. José também inventou uma abanadeira de café. Pedro, Cláudio e a mãe puxavam com o rodo e não venciam. Fazia 40 sacas por hora, funcionando com manivela.

Bola de fogo

Havia uma trilha na mata, em Paiçandu, que José passava para ir à casa dos pais de Elídia, quando namoravam. Todo mundo tinha medo porque diziam que uma bola de fogo corria atrás das pessoas. Mas esse era o único caminho.

Em uma noite, saiu da casa da namorada mais de 10 horas da noite. Numa certa altura, apareceu uma bola enorme de fogo. Todos os pelos do corpo arrepiaram e as pernas tremiam tanto que mal conseguia pedalar a bicicleta. Sem nem olhar para trás, desembalou para longe. Daí em diante só passava acompanhado e correndo.

Polenta

José odiava vaca e mais ainda quando tinha que tirar leite. Tudo por causa da Polenta, a vaquinha da família. Para poder tirar leite, tinha que amarrar as pernas e o rabo da vaca, se não quisesse ser derrubado ou levar uma lambada nas costas.

Mas era só jogar a corda nas pernas que a Polenta deitava. E aí começava a briga dos dois. Nada fazia Polenta levantar, nem colocando fogo do lado. “Isso não é para mim”, vivia dizendo.