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Pé na agricultura, no comércio e na política

08.09.2017

Os Bovo, de São Jorge do Ivaí, são pioneiros no município, para onde se mudaram em 1952, construindo muitos laços de amizade


Parceiro do pai no trabalho, nos negócios e nas andanças pelo Paraná, o cooperado Mauri Bovo, de São Jorge do Ivaí, diz que tudo que aprendeu e conquistou deve ao pai, João Bovo Filho. Homem sábio e bom de negócio, conta Mauri, o pai viu nas terras paranaenses a chance de crescer. Deixou o café arrendado que cuidava em Franca, São Paulo, e se mudou de mala e cuia para o Paraná, se fixando primeiro em Apucarana, em 1947. Na época, o cooperado tinha sete anos.

João e Ângela (falecidos em 2009 e 1996, respectivamente) trabalharam como arrendatários em uma lavoura de café, mas assim que puderam, passaram a trabalhar por conta própria, comprando uma venda de secos e molhados, um pequeno sítio de café e um caminhão, com o qual João viajava por todo lado comprando cereais em um lado, vendendo em outro ou transportando produções e mudanças.

TRABALHO - Os quatro filhos é que ficavam na venda. Meire, a mais velha, tinha nove anos e mal alcançava o balcão para atender aos fregueses. Mas Ângela sempre ia ajudar nas horas de maior movimento. Já João se dividia entre o caminhão e o cafezal, conduzido com parceiros.
A família se mudou para São Jorge do Ivaí em 1952. Na época estavam loteando o município e tinha somente umas 12 casas construídas e um comércio. A venda de João foi a segunda.

A família sempre teve um pé na agricultura, outro no comércio e a alma na política. Desde 1974, Mauri tem se dedicado apenas a agricultura. Ele cultiva 25 alqueires com milho e soja, cultura que introduziu na propriedade em 1989, erradicando o café.

NEGÓCIOS - João sempre teve tino para os negócios e Mauri o acompanhava nas viagens, observando como o pai lidava com tudo. “O que aprendi com ele valeu mais do que qualquer formação acadêmica”. E o estudo sempre foi uma preocupação de João, que conseguiu formar todos os filhos.

Mauri era ainda um garoto, com 12 anos, e já movimentava conta em banco e cuidava da contabilidade da venda. Havia mais de 800 fregueses na caderneta e ele controlava tudo e até negociava compra e venda de produtos. “Vi meu pai fazendo e fazia o mesmo”.

Anos mais tarde passou a acompanhar mais de perto as atividades agrícolas do pai, assumindo a gestão da propriedade e comprando seu próprio sítio. Casado com Maria Helena, que é professora, Mauri teve três filhos, Marivaldo e Maristela, falecidos, e João Mário, que é dentista.

COCAMAR - A ligação com a Cocamar teve início assim que a cooperativa chegou à região. “É uma empresa que sempre se mostrou idônea, responsável e que nos dava toda segurança. Por isso cooperamos”, afirma Mauri.

Confiança foi fundamental

A região que os Bovo tinham o cafezal era tão fria que quando o tempo ameaçava virar, a lavoura já estava torrada pela geada. “Por conta disso, sempre nos apoiamos muito na renda do comércio. Agora, com a soja, não tem coisa melhor”, comenta Mauri.

Na região geava quase todos os anos, mas as piores para ele foram as de 1955 e de 1975, que queimou completamente o café. “Foi só dar uma olhada de manhã no cafezal para saber que tinha perdido tudo”. Após 1975, a família até tentou criar bicho da seda, enquanto formava o café, mas era muito difícil lidar e dava muita mão de obra, diz Mauri.

Como a família tinha o comércio, a crise enfrentada não foi tão difícil e conseguiu ajudar muita gente, segurando as contas de quem perdeu tudo. Gesto retribuído anos depois, em 1988.

PREJUÍZO - Nesta época, João atuava como cerealista e tinha vendido mais de 3 mil sacas de café para um cerealista maior em Londrina, que pagou com um cheque sem fundo e sumiu no mundo. “Na época dava para comprar 30 alqueires”, conta Mauri.

Ele ressalta que todos os produtores que tinham entregado a produção para João confiaram nele pois sabiam que era honesto. Além de esperar o pagamento, ainda entregaram mais café para que João conseguisse pagar a conta. “Foi um período bastante difícil. Demorou, mas, conseguimos pagar todo mundo e darmos a volta por cima”, afirma.

Vamos pescar

Quando tinha 15 anos, alguns amigos chamaram Mauri para ir pescar na beira do Rio Ivaí. Como nunca tinha participado de uma pescaria, não tinha a menor ideia do que vestir. Além de caprichar no visual, estreou sapatos novos.

Enquanto os amigos, todos equipados, se divertiam pescando, Mauri quis explorar a beira do rio e acabou afundando no barro. No desespero, acabou abandonando os sapatos e mal conseguiu sair do atoleiro. Depois dessa, nunca mais quis ouvir falar de pescar.

Política no sangue

A família sempre foi ligada à política. De empresário rural a prefeito foi um processo natural. Segundo cerealista de São Jorge do Ivaí, João conhecia todo mundo e sempre foi destacado pela honestidade, conta Mauri. Como era um dos poucos que possuía caminhão na cidade, sempre ajudava a todos levando ao médico, socorrendo, se posicionando a respeito de tudo na cidade. “Tudo mais foi consequência”, diz.

Mauri se recorda das inúmeras vezes que chegava aos sítios para comprar ou vender algo e encontrava todo mundo desesperado, com alguém passando mal, sem saber o que fazer. “Meu pai colocava no caminhão e levava para onde precisasse. E mais do que um cliente, acabavam se tornando amigos”.

AMIGOS - Também não era de guardar mágoa. Apaixonado por futebol, às vezes os ânimos se exaltavam. Uma vez, discutiu feio com um dos jogadores que saiu brabo jurando nunca mais olhar na cara de João. Alguns minutos depois voltou correndo desesperado com o filho nos braços, que tinha aspirado um grão de feijão e estava sufocando. Sem nem pestanejar, João pegou a criança e levou para o hospital em Maringá. Depois dessa, os dois se tornaram grandes amigos.

MANDATOS - João Bovo Filho foi vereador em dois mandatos, sendo o mais votado do município na época, e foi prefeito por duas vezes, de 1969 a 1973 e de 1977 a 1983. O irmão de Mauri, José Luiz Bovo também foi prefeito em três mandatos: 1989 a 1992 e de 1997 a 2000 e de 2001 a 2004. E o legado continua com Andre Luiz Bovo, neto de João, atual prefeito, que foi eleito prefeito para o período de 2013 a 2016 e reeleito de 2017 a 2020. Mauri também foi eleito três vezes vereador.

Geladeira rústica

Na venda, a geladeira para manter as bebidas frescas era bem rústica. “A gente abria um buraco no chão, no local mais fresco do ambiente e recobria de sal e soda. Depois de cheio de garrafas, fechava e pronto. A bebida ficava bem fresca”, conta Mauri.

Maus bocados

Quando viajava com o pai vendendo de tudo nos sítios, muitas vezes acabavam comendo na casa dos produtores. Normalmente, se deliciavam com os melhores quitutes, mas às vezes, passavam mãos bocados.

Uma vez, serviram alho cru na salada e Mauri não suportava nem o cheiro.
Durante todo o almoço, ficou rodando os caroços de alho no prato de um lado para outro sem jeito de falar que não gostava. Quando teve a oportunidade, juntou tudo e escondeu dentro do bolso, para depois descartar.

Artes e surras

Para economizar, era a própria mãe que fazia os quitutes para vender na venda. À luz de lamparina, ficava até tarde na cozinha para deixar tudo pronto para o outro dia.

De orelha em pé, Mauri ficava atento até ouvir a mãe ir deitar. Quando tudo aquietava, saia pé-ante-pé até a cozinha e assaltava as bacias, se deliciando com os quitutes.

Ele deixava tudo do jeito que encontrara, mas a mãe sempre descobria o desfalque. Aí era surra na certa. Mauri conta que foi o filho que mais apanhou, por causa das artes que fazia

BOLA DE GUDE - Em outra feita, a mãe pediu para Mauri levar uma formada de pasteis para a venda. No meio do caminho, se entreteve com uma garotada que jogava bolinha de gude e se esqueceu da bacia de pasteis num canto. Empolgado com o jogo nem percebeu que os garotos estavam comendo tudo. Quando viu a bacia vazia, sabia que estava em maus lençóis. Apanhou de novo.

Mas às vezes levava sorte como quando foi levar o almoço para o pai na roça. Brincando no caminho, tropeçou e derramou toda a comida no chão. Recolheu o que deu, por cima, tomando cuidado, mas João achou um torrão de terra no meio, mas pensou que Ângela não tinha escolhido o feijão direito na hora de cozinhar. Feliz por não apanhar de novo, Mauri ficou bem quieto.