Notícias

Voltar

Unidade e respeito é a força dos Lucas

14.11.2017

Antonio e o irmão Geraldo vieram crianças para o Paraná, com os pais, Emílio Lucca e Domênica e hoje vivem em Maringá

A vida não foi fácil. Momentos difíceis marcaram a história da família Lucas, de Maringá, mas em todo tempo, conta Antonio Marcos Lucas e a esposa Evanilda, Deus cuidou de todos e hoje agradecem pela parceria e o amor que os une. Todos trabalham em sociedade. Cada um tem a sua responsabilidade e faz a sua parte. Ao final da colheita, tudo é dividido entre as seis famílias que sobrevivem das terras e cada uma comercializa a sua parte.

Todas as decisões são tomadas em conjunto – sentam e conversam e entram num consenso, e um respeita o outro. Para Antonio, isso e a unidade que há na família é o segredo para ainda permanecerem juntos plantando soja e milho em Sarandi, Maringá, Paiçandu e Itambé, sendo parte da área arrendada.

SUCESSÃO - Os irmãos Geraldo e Antonio já se aposentaram e só dão assistência para os mais novos quando há muito trabalho. E como Geraldo só teve uma filha, são os três filhos de Antonio (dos seis que teve - três são mulheres), que conduzem as plantações: Valter, Valdir e Valdecir, junto com dois netos, Jorge e Marcelo, que seguem os passos dos pais.

Para garantir a sucessão, Antonio sempre envolveu os filhos com todas as atividades do sítio, ensinou e procurou mostrar os dois lados do negócio - o positivo e o negativo -, mas sempre deixou claro o amor que tinha pela terra.

INÍCIO - Os pais, Emílio Lucca e Domênica, já falecidos, vieram da região de Presidente Prudente (SP), onde venderam quatro alqueires, se estabelecendo em 1942 em Marialva, em 13 alqueires de mata onde hoje é Sarandi, comprados da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná. Junto com os pais veio o avô, Augustinho, que já era de idade, e os três irmãos, Geraldo, com nove anos, Antonio, com sete e a caçula, Ana Maria, já falecida.

“Era tudo mato. A estrada aberta ia até a beirada da nossa propriedade. O pai teve que baldear a mudança nas costas, por uma picada por 800 metros. Poucas pessoas moravam na região. Só tínhamos como vizinhos borrachudos e pernilongos”, brinca Antonio, que ainda ajudou a derrubar a mata, covear e plantar o café. O barraco de palmito coberto de tabuinha e chão batido foi construído perto do rio. Era um cômodo só, que depois foi dividido.

MARINGÁ - Quando Antonio e Emílio vieram para Maringá, em 1960, Geraldo ficou em Sarandi, mas os três mantiveram sociedade de tudo, se revezando no trabalho. Só contratavam mão de obra na colheita.
Emílio é italiano e veio para o Brasil, com os pais, com 12 anos, em 1920, após a Primeira Guerra Mundial, para trabalhar nas lavouras de café. Além dos três filhos, teve sete netos, 13 bisnetos e dois tataranetos.

Armazenagem rústica

Os cereais produzidos eram armazenados em “gaiolas” feitas de troncos mais finos, que eram trançados e recobertos de palha de arroz para os grãos não vazarem.

Os produtores também faziam pilhas de cachos de arroz, cobrindo-os com palha. Os montes ficavam espalhados por toda a propriedade. A estratégia conservava o arroz até que sobrasse tempo para eles poderem bater na mesa e ensacar.

O café, no início, era seco, ensacado e guardado dentro de casa, em um quarto reservado para isso. Quando juntava um bom volume, vendia. Anos mais tarde é que se construiu o paiol coberto com tabuinha.

Sustos com os bichos

Sempre ouvia falar das pintadas que rondavam a região, mas nunca viu uma. Só deu de cara uma vez com um filhote de onça parda. Mas enquanto ele correu para um lado, Antonio e os amigos foram para o outro. “Vai que a mãe estivesse ali por perto”. Eles sempre andavam fazendo o maior “tropé” na mata para espantar os bichos. “Diziam que as onças se assustavam com o barulho”.

Em outra feita, quando era menor, nas caminhadas na mata, passou perto de um tamanduá bandeira que, pendurado na árvore, muito brabo, se balançava tentando acertá-lo com a pata. “Pareceu mais assustador do que era”, conta.

COBRA - Tinha todo tipo de animal silvestre, mas o mais comum sempre foram as cobras. O primeiro encontro de Antonio com uma foi logo no início quando, ainda criança, ajudava na limpeza da cova. Enfiou as mãos no buraco e encontrou uma enorme. Depois disso, passou a tirar a cobertura com um galho e cutucar antes de limpar.

Pequeno paraíso

A casa onde hoje Antonio mora fica onde era o carreador de café. E ainda é o local onde toda a família, que gosta de estar junta, “bate ponto”, reunindo quase quarenta pessoas.

Do sítio, só preservaram uma pequena chácara de três hectares na esquina da Avenida Tuiuti com a Avenida Doutor Alexandre Rasgulaeff, onde Antonio planta de tudo para subsistência da família, sem agrotóxicos, além de criar animais. Aos 80 anos não conseguiu ficar longe do campo e do trabalho.

Depois da geada de 1975, as fazendas de café próximas a sua, na zona norte de Maringá, foram aos poucos sendo loteadas. “Era só barulho de martelo”, conta Antonio. O sítio dos Lucas ficava entre a Fazenda Maringá, de Alfredo Nyffeler e a Fazenda Santa Alice, do engenheiro Alexandre Rasgulaeff.

LOTEADO - Quando tudo foi sendo loteado e teve até mesmo parte de seu lote desapropriado e uma casa demolida para a passagem da avenida, Antonio viu que não tinha mais como continuar ali. “Estávamos cercados pela cidade e não podíamos aplicar agrotóxicos para condução da lavoura. Ficamos espremidos. As pessoas cortavam caminho pelo meio da lavoura estragando a plantação, roubavam milho. Estava difícil produzir. Fui obrigada a lotear”.

Acidentes e milagres

Quando a energia elétrica chegou ao sítio foi um momento de muita alegria, mas também de desespero. Junto com a energia, Antonio pediu ao eletricista que instalasse a serra elétrica. Com tudo pronto, o eletricista foi testar o equipamento, mas a estrutura se rompeu e a serra saiu voando, acertando a perna de Antonio e em cheio no rosto do filho Valdir, que tinha cinco anos na época e brincava sentado ali perto.

O eletricista desmaiou, Antonio estava esvaindo em sangue e Evanilda é quem pegou o filho no colo e correu para a Rural que possuíam, que ainda afogou e demorou a dar partida. Os médicos desenganaram o menino. Valdir ficou 11 dias em coma. “Viver foi um milagre de Deus. E quando abriu os olhos, a primeira coisa que pediu foi sorvete”, conta Evanilda.

SEGUNDO - O segundo milagre na família aconteceu seis meses depois. Evanilda e Antonio estavam batendo soja e deixaram os filhos mais velhos cuidando dos mais novos. Eram seis filhos e o mais velho tinha 10 anos. No meio do dia, um deles veio correndo até onde estavam e disse: “A Selma (que era a caçula) morreu na caixa d’água”.

Eles se descuidaram e a irmã foi brincar na água. Quando viram, ela já estava roxa. Tiraram da água e correram chamar os pais. Um vendedor de frango que passava por ali ouviu os gritos desesperados e socorreu a menina fazendo respiração boca a boca. Todos respiraram aliviados quando Selma deu uma golfada de água e começou a tossir.

SEM MÉDICO - Em outra ocasião, estavam jogando bola quando o mais novo dos meninos veio falando para Antonio: “Acho que quebrei o braço”. Quando olhou, o osso estava deslocado, saltado para fora. Mas nada que o vizinho japonês, que era massagista, não consertasse. Enquanto conversava com o menino perguntando o que aconteceu, para distraí-lo, num tranco colocou no lugar e pôs uma tala pedindo para voltar cinco dias depois.

Ir ao médico, na época, era para poucos. “Quando o Valdir sofreu o acidente, vendi toda colheita de café para pagar o hospital. Sobrevivemos apenas com o que produzimos das outras culturas. Foi um período muito difícil”.

Sem saída

Logo que se mudou para Maringá, a família morava no final da estrada, que era a única saída da propriedade, mas esta passava no meio do sítio do vizinho. Ao redor era tudo cafezal plantado. Irritado com o movimento, o vizinho decidiu fechar e impedir o trânsito e foi bem no dia em que ia nascer o segundo filho, Valter.

Sem ter como sair com o caminhão para buscar a parteira, Antonio teve que recorrer à velha bicicleta, percorrendo oito quilômetros por entre o cafezal. Com a parteira na garupa e esbaforido, quando o produtor conseguiu chegar, o bebe já estava nascendo.

O problema teve fim quando Antonio recorreu ao então promotor João Paulino Vieira Filho e a estrada, que era pública, foi liberada pela justiça.

Supersafra nos anos de 1980

Na década de 1980, Antonio chegou a colher, em cinco alqueires, 160 sacas de média da variedade BR 16 da Embrapa, o que foi uma supersafra para a época. “Foi um ano em que tudo deu certo”. O início com o cultivo da soja, entretanto, foi bastante difícil.

Quando começou a arrancar o café em Paiçandu para plantar soja, por causa da geada, a família tinha perdido toda a produção de café e estava sem nada para vender. “Eu lembro quando o Antonio terminou o serviço, arrancou o chapéu e disse. Agora só teremos dinheiro daqui a seis meses”, conta Evanilda. A primeira colheita de soja foi em 1973.

HIPOTECA - Sem dinheiro para comprar o trator, a grade, a plantadeira e o arado, Antonio hipotecou todos os 26 alqueires que possuíam em 1972 para financiar. Mas também, mal colheu, correu para pagar tudo. Após o sufoco, veio um período de bonança e fartura. “Colhemos bem tanto a soja quanto o café”, diz Antonio. O trator ele guarda como relíquia até hoje.

Anos mais tarde, quando começou a expandir, o apoio da Cocamar foi fundamental, diz Antonio. Ao lado dos 15 alqueires que tinha em Paiçandu, teve a oportunidade de comprar outros oito alqueires, entre o final da década de 1980 e início de 1990. Mas isso só foi possível porque vendeu parte da soja antecipadamente, ainda verde. “Se tivesse vendido mais, dava para comprar outros sete alqueires, mas tive medo de arriscar”. No final, acabou colhendo153 sacas por alqueire.

Bocha e carteado

Para a família de Antonio, em vez do futebol, já que não tinha campinho próximo, o que fazia a alegria da turma eram os jogos de bocha e principalmente o carteado. Todo fim de semana tinha jogo de baralho.

Antonio e alguns vizinhos se reuniam e jogavam até tarde, assando frango para fazer uma boquinha no intervalo. Era sempre a mesma equipe o que variava era a casa onde jogavam. Aí uns se mudaram, outros morreram e aqui na região, só Antonio permanece.