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Nem percebemos que estamos fazendo história

22.12.2017

Quais os países do mundo que podem realizar o que o Brasil vem realizando nas últimas quatro décadas? Isso é História com agá maiúsculo. Estamos dentro de um surto histórico raro onde cidades brotam do chão, onde aprendemos com rapidez vertiginosa a produzir o necessário para nós mesmos e o suficiente para abastecer quem não tem a ventura territorial e climática que temos

Meu trabalho, de quase quarenta anos, dentro da Rede Globo, exercitando o jornalismo que cobre os eventos do campo, não é um trabalho solitário. Televisão por essência é trabalho de equipe. E a equipe, da qual participo, é da mais alta qualidade. Sendo que meu papel de editor-chefe é tão somente o de deixar as colegas e os colegas trabalharem. Com a outra equipe, a que produz a Campanha “Agro a Indústria-Riqueza do Brasil” dá-se a mesma coisa. Trata-se de um grupo que rapidamente se apaixonou pelos temas do agro.

Entendemos, sem arrogância, que nosso trabalho, ao mostrar persistentemente o campo brasileiro, tem tido, sim, o papel de ajudar a consolidar a imagem do nosso agronegócio em todas as suas dimensões. Estamos colocando nossos tijolos nesta edificação. Nos dias de hoje, não há como qualquer instituição escapar de seus significados para a sociedade. Para o bem ou para o mal. As instituições, como nós também, são o que são, são o que acham que são e são o que os outros acham que elas são.

TODOS - Ora, temos tratado de todos os produtos agropecuários, visitamos todas as regiões do país, não discriminamos nem as grandes nem as pequenas propriedades; ouvimos os agricultores, mas, também os pesquisadores, os técnicos, os funcionários públicos envolvidos em todos os processos relacionados ao setor.

Ouvimos enfim todos os elos das cadeias produtivas. Prezamos a cultura e as tradições herdadas de eras passadas que sobrevivem pelo Brasil a fora. Esse tem sido e continuará sendo nosso papel: permitir que a sociedade tenha do mundo do agro uma ideia a mais próxima possível da realidade. Temos assim plena consciência da importância do que fazemos.

SUSTENTÁVEL - Em relação a este vasto universo do agro, entendemos também que não é mais possível pensar em exploração agropecuária que não seja sustentável. Pela íntima relação das plantas e dos animais com a natureza, com o solo, com a água, com o sol, achamos até que todas as bandeiras da sustentabilidade deveriam estar, primeiramente, nas mãos dos próprios agricultores.

A natureza não pode ser inimiga da agricultura, nem vice-versa. Neste quesito, entendemos que hoje é preciso distinguir com nitidez agricultor de grileiro, de desmatador, de predador, de bandido. Para o Brasil e para o mundo isso será cada vez mais vital. Aqui também o interesse maior da distinção tem de ser dos agricultores autênticos.

O campo é o útero que gera a cidade. Para nós que aqui estamos isso é evidente. Talvez ainda não seja para todos os urbanos. Contudo para eles e para nós é preciso, neste momento do Brasil, tomar consciência da gigantesca dimensão daquilo que estamos fazendo no nosso chão. Tudo bem que dependemos de tecnologias internacionais, que importamos insumos e defensivos. Mas, quais os países do mundo que podem realizar o que o Brasil vem realizando nas últimas quatro décadas?

HISTÓRIA - Isso é História com agá maiúsculo. Estamos dentro de um surto histórico raro onde cidades brotam do chão, onde aprendemos com rapidez vertiginosa a produzir o necessário para nós mesmos e o suficiente para abastecer quem não tem a ventura territorial e climática que temos. Estamos tão dentro deste processo que talvez nem percebamos que estamos fazendo história.

Indo mais adiante, temos de tomar consciência de que a agricultura não só forja cidades, ela é também o útero das civilizações. Somos civilizados porque o campo nos fornece todos os elementos para sermos. As civilizações clássicas da antiguidade se formaram em volta dos grãos, da fertilidade dos vales, dos rebanhos tutorados.

A agricultura é íntima também dos ritos religiosos aos quais ela empresta seus símbolos. Os primeiros deuses, seja no velho mundo ou no novo, são em geral aqueles deuses que garantem as boas safras. Entre nós, observem, ainda nos dias de hoje, as festas de colheita estão surgindo por todo lado.

GUERRAS - Infelizmente, a agricultura tem sido também, no decorrer da história, íntima das guerras, de disputa pela comida. Em conflitos de motivações expansionistas ou ideológicas ela, a agricultura, entra como fator decisivo na medida em que garante, ou não, o suprimento do farnel do soldado. Que não haja guerras! Mas, se por sinistra hipótese, o desatino de alguns malucos as desencadeassem, nosso país, sem armas relevantes, estaria na frente dada sua capacidade de produzir alimentos.

VANTAGEM - Muito bem. Onde formos buscar, na história ou na geografia, ou naquilo que se chama geopolítica global, onde formos buscar significados para a agricultura esbarraremos inevitavelmente numa conclusão espantosa. Esbarraremos na evidência de que o Brasil tem, hoje, agora, uma vantagem planetária extraordinária.

Já fomos reconhecidos destacadamente pelo pau-brasil, pelo açúcar dos tempos coloniais, pela borracha, pelo café, pela bossa nova, pelo futebol... tudo isso é história que nos orgulha. Entretanto, não seria despropositado afirmar que o que está acontecendo no nosso campo supera tudo isso junto.

Estamos testemunhando, em nosso ofício de jornalistas, o trabalho espetacular de vocês. Tomara que o Brasil entenda com orgulho, com postura de soberania, tudo que o agro está fazendo para o seu povo e para o mundo.

(*) Editor-chefe do programa Globo Rural e coordenador do projeto Agro – a Indústria Riqueza do Brasil