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Um prato que é pura história

10.09.2018

Frango cozido com polenta e refogado de taioba era o cardápio mais comum de muitas famílias, nos tempos do café

Imagina uma pratada de frango caipira frito em pedaços, acompanhada de polenta e um refogadinho de taioba. Essa simples e saborosa iguaria faz parte, com certeza, da memória de muitas famílias que viveram no campo.

Por isso, Cleuza, a filha caçula do casal de produtores Nélson e Umbelina Barlati, de Floresta (PR), não teve dúvidas quando ficou sabendo do Festival de Sabores Chefs do Campo: inscreveu a receita que por inúmeras vezes viu a mãe preparar no sítio, ao fogão a lenha. Trata-se de um prato “repleto de histórias” e, portanto, de grande valor sentimental.

Segundo ela, se antes essa era o tipo da comida comum em casa, que agradava a todos, “hoje é ainda melhor, pois tem gosto de infância, de convivência, de coisa boa”. Sua mãe, de 77 anos, que é pioneira do núcleo feminino fundado há quase 15 anos pela cooperativa em Floresta – se recorda que nos tempos do sítio, os filhos eram criados soltos, subiam em árvore e brincavam com os bezerros. “A vida era diferente e, com certeza, as pessoas em geral se sentiam muito mais felizes do que hoje”.

Enquanto Cleuza preparava o almoço, dona Umbelina aproveitou para prosear, lembrando a solidariedade que havia antigamente, no meio rural. Se uma família vizinha fazia pães, distribuía para a outra; e quando esta fazia doce ou abatia um porco, aquela já sabia, de antemão, que teria o seu pedaço. Da mesma forma, o povo se juntava em mutirão para ajudar na colheita. Sem falar que as reuniões e festas aconteciam em meio a muita animação, num ambiente de cordialidade e confiança. Bons e velhos tempos!

Cleuza, que é graduada em tradução e interpretação de espanhol, contribuiu para tornar a receita ainda mais gostosa. Certa vez, ao preparar o frango, experimentou utilizar gordura de galinha em vez de óleo. Deu certo e, desde então, é assim que todos passaram a pedir.

Lembranças dos

tempos da colônia

Os Barlati mudaram-se em 1969 para Floresta, vindos de Manduri (SP). Nélson é de descendência italiana e Umbelina, espanhola. Ambos se conheceram na fazenda do pai do marido dela, para quem sua família trabalhava, habitando uma das casas da colônia. O casal tem um filho e três filhas e Umbelina conta que sempre gostou de cozinhar. A vida no campo propiciava fartura na mesa: arroz e feijão, milho, hortaliças e demais culturas, colhidas nas ruas do café, sem falar das criações. A carne de porco era guardada na banha, em lata; polenta nunca faltava, assim como o tutu de feijão. “Sempre vivi no sítio, mas faz uns 15 anos que a gente se mudou para a cidade, porque todo mundo foi embora”, diz Umbelina.

Ela gosta de se lembrar dos tempos da colônia: todos acordavam às 4h, quando tocava a sirene; às 6h, a turma já estava no trabalho e, às 9h, paravam para o almoço. Quando o relógio marcava meio dia, fazia-se um pequeno intervalo para o café e às 15h, o último lanche. A jornada de trabalho seguia até às 18h, quando o pessoal retornava às suas casas. “Nesse horário já estava escurecendo e a gente ia embora correndo, pra não andar na escuridão”, diz. E ninguém pense que, por ser mulher, Umbelina era poupada do serviço mais pesado: ela carpia, colhia café e ainda carregava sacaria nas costas. Aos sábados, a trabalheira continuava até às 15h, quando se ouvia a sirene. Mas ela não descansava: com o horário livre, corria para fazer um serviço extra no vizinho e ganhar uns trocados. A produtora afirma se recordar com muita saudade desses tempos, nem tanto, é claro, pelo serviço, mas pela alegre e calorosa convivência com as famílias da colônia.


FRANGO CAIPIRA À MADE IN ROÇA


INGREDIENTES

- ½ frango em pedaços;

- 2 xícaras de chá de cebolas picadas;

- uma pequena porção de gordura de galinha (no caso da produtora de Floresta, a gordura foi recolhida por ela mesma, em outras receitas);

- uma chaleira de água fervente;

- pimenta-do-reino;

- sal a gosto.



MODO DE FAZER

- fritar os pedaços de frango numa panela, com gordura de galinha;

- acrescentar a cebola;

- a água fervente é importante, durante o cozimento, para evitar que a carne queime; é preciso ficar atento e, quando secar o fundo, acrescentar água;

- coloque sal e pimenta-do-reino à gosto.


Acompanhamento: uma polenta mais mole e taioba refogada (que se prepara igual a uma couve).