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Carne suína preparada ao modo oriental

27.09.2018

O prato que já é tão tradicional e popular entre os brasileiros, fica ainda mais apetitoso – e surpreendente - ao incorporar temperos típicos da culinária japonesa

A devoção aos costumes, valores e tradições foi uma característica marcante entre os imigrantes japoneses, cujos descendentes representam uma parcela expressiva da população do norte paranaense.

Shoiti Ito nasceu em Fukushima e, com poucos anos de idade, em 1934, foi trazido por seus pais para o Brasil. A família se fixou em Capelinha, atual Nova Esperança (PR), onde ele cresceu e se casou com Kimie. Dessa união, foram gerados um filho e sete filhas, entre as quais a produtora rural Akiko Teresa Ito Kumassaka, moradora em São Jorge do Ivaí.

TEMPOS DIFÍCEIS - Por muito tempo, o casal trabalhou para os outros, cuidando de lavouras de café. “Muitas vezes, mesmo quando estava grávida, carregava balaios de pó de serra para espalhar nos cafezais”, conta dona Kimie, com seu jeito sereno e doce, recordando-se também que os filhos pequenos ficavam sob os cuidados da sogra quando ela e o marido permaneciam por até duas semanas longe deles, prestando serviços em cidades vizinhas. Foram tempos difíceis, mas a família conseguiu ter os seus próprios negócios. Cultivava horta para vender produtos em feiras, mantinha criação de suínos e, mais tarde, estabeleceu-se com uma casa comercial em Nova Esperança, o Bar e Comércio Tokyo.

Eram dinâmicos e participativos. Shoiti presidia a igreja budista na cidade e, por uns tempos, chegou a ser lutador de sumô. Kimie, por saber cozinhar bem, encarregava-se de coordenar essa tarefa, na associação da comunidade nipônica. Em casa, comiam habitualmente arroz japonês e missô, uma pasta produzida com a soja que semeavam nas ruas do café. Só muito tempo depois os brasileiros conheceriam a tal soja, hoje o carro-chefe do agronegócio nacional. A alimentação deles, como da maioria das famílias de origem japonesa, era sem gordura, com shoyu (molho de soja), muito gengibre, pepino, cebolinha japonesa e verduras, além de pratos tradicionais da cozinha oriental, como peixes, yakisoba, sashimi, sushi, onishimi e outros.

ADAPTANDO-SE - No seu dia a dia, as mulheres levantavam mais cedo para cozinhar, organizar a casa e deixar tudo pronto para o momento de seguirem para a roça, com os homens. Por fim, nos dias chuvosos, quando não era possível trabalhar na lavoura, elas aproveitavam o tempo para costurar. Alguns dos momentos de descontração ficavam por conta das alegres e movimentadas gincanas do Undokai, no início de maio. Muitas décadas após a chegada dos precursores, grande parte desses hábitos não resistiu. Com o tempo, as famílias se adaptaram à vida ocidental e brasileira.

VALORES - Akiko, filha de Shoiti e Kimie, casou-se há 28 anos com Yoshio Bento Kumassaka e eles têm três filhos: Júnior, Fabrício (em memória) e Igor. A família produz grãos e, honrando a história de pais, Akiko é uma ativa participante em sua comunidade. Segundo ela, os tempos são outros, mas continuam preservados os valores e princípios fundamentais, como a disciplina em casa e nos negócios, o respeito ao próximo, a união familiar tão cultivada pelos mais velhos, a dedicação ao trabalho e, principalmente, o costume diário de agradecer a Deus, antes das refeições, reconhecimento que, muito comum entre os japoneses, se estende também aos pais e aos antepassados.

A família também não deixou perder-se a tradição culinária. Ainda bem. Embora incorporando alguns dos principais itens mais comuns do cardápio brasileiro, prepara iguarias que agradam a todos os paladares, como a carne suína ao modo agridoce. Veja, abaixo, como fazer.

Por último, vale registrar que os sogros de Akiko chegaram a São Jorge do Ivaí em 1951, para derrubar o mato e plantar café. Ainda hoje, aos 88 anos, seu Tadao Kumassaka continua dirigindo e faz questão de levar marmitas com as refeições aos seus familiares, na propriedade rural, que fica perto da cidade.


MODO DE FAZER


COSTELINHAS DE PORCO AGRIDOCE



INGREDIENTES

- 1kg de costelinha de porco sem gordura e com bastante carne;

- 1/3 abacaxi picado em quadradinhos (sem o miolo da fruta);

- 100g de gengibre fresco picado em tiras;

- shoyu a gosto, mas cuidado para não escurecer muito a carne;

- 1 envelope de rondashi;

- óleo vegetal ou banha de porco;

- 1 pitada de adoçante;

- 3 dentes de alho;

- sal a gosto (mas pouco, para prevalecer o sabor do gengibre e do abacaxi);

- se quiser, use Ajinomoto para realçar ainda mais o sabor;

- cebolinha.


MODO DE FAZER

- Refogar o alho em óleo ou banha de porco;

- acrescentar as costelinhas e refogá-las com alho;

- incluir os demais ingredientes, inclusive o adoçante.

Segundo Akiko, o cozimento demora 1 hora ou um pouco mais, em fogo médio. Importante: quando estiver na metade do cozimento, provar para está de sal. Se precisar, utilize shoyu (em quantidade pequena, para não escurecer a carne) ou sal.

Com o cozimento concluído, regue com cebolinha.

Coloque a carne numa travessa, sobre folhas de alface e abacaxi cortado em pedaços, como na foto. O abacaxi deve receber um leve cozimento.

O prato pode ser acompanhado de arroz branco, feijão com bacon e chimichurri, torresminho crocante e salada de folhas. A família Kumassaka também costuma ter à mesa o batatonese, uma versão de maionese que leva limão, leite, óleo e batata cozida. Se quiser, acrescente beterraba, cenoura, cebola e cheiro verde.