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Soja e cana, lado a lado. É a parceria Cocamar-Cocal

28.01.2020

De repente, uma ampla fronteira agrícola se descortina para os produtores de soja no estado de São Paulo, bem perto da divisa com o Paraná. Em pleno Pontal do Paranapanema, na quente e arenosa região oeste paulista, a soja está entrando para valer em terras dominadas pela cana-de-açúcar.

Não, a soja não chega para concorrer com os canaviais e, quem olha do alto, se encanta com a beleza das linhas de cana harmonicamente intercaladas por lavouras da oleaginosa.

O que está acontecendo por lá é um projeto inovador de parceria firmado pela Cocamar e o grupo paulista Cocal, dono de usinas em Paraguaçu Paulista e Narandiba, que o Rally Cocamar de Produtividade foi conhecer.

ESCOLHIDOS A DEDO - Com seus 150 mil hectares de canaviais, a Cocal abriu as portas para a Cocamar, que arrendou 5,2 mil neste primeiro ano para dar início a uma experiência inédita que conta com a participação de 19 experientes cooperados produtores de soja, escolhidos a dedo, a maioria deles paranaenses.

O projeto começou a ser costurado a muitas mãos depois de uma conversa entre o gerente de negócios da Cocamar, Marco Antonio de Paula, e o diretor-superintendente da Cocal, Paulo Adalberto Zanetti. “Constatamos que era viável e havia sinergia. Levamos o assunto para os acionistas e resolvemos apostar na ideia”, conta Zanetti, que por muitos anos esteve ligado ao cooperativismo e ao setor de bioenergia do Paraná. Segundo de Paula, “a formatação do modelo de parceria levou um bom tempo e tudo foi muito bem pensado e estruturado para que as três partes envolvidas se sentissem seguras”.

MEIOSI - O projeto agrada a todos. Na visão da Cocal, que há alguns anos começou a fazer os viveiros de cana no campo, em sistema de Meiosi (Método Interrotacional Ocorrendo Simultaneamente), para reduzir custos, melhorar a logística e investir na qualidade do solo, a parceria com a Cocamar não poderia ser mais oportuna e interessante, por vários motivos. Primeiro porque a empresa paulista trata as questões técnicas e de arrendamento exclusivamente com a cooperativa, sem contato com os 19 agricultores, o que ficaria impraticável. Segundo porque a soja não é sua especialidade e ela sabe que a rotação com a oleaginosa oferece muitos benefícios, como a recuperação do solo, a quebra do ciclo de pragas e doenças, a economia com herbicidas e o aumento da produtividade de cana.

Pelo método de plantio convencional de cana, o problema não se resume aos altos custos da operação, mas também à compactação do solo, ocasionada pelo intenso tráfego de máquinas pesadas.

O projeto se tornou a menina dos olhos da Cocamar, que está em expansão pelo interior de São Paulo. Com base nos bons resultados da parceria, a cooperativa aposta em uma ampliação da área arrendada nos próximos anos. Além de fornecer insumos aos produtores e receber a safra nas estruturas operacionais que possui em Iepê e Cruzália, ela cumpre sua função social de propiciar mais renda aos cooperados e contribuir com o desenvolvimento regional.

Para os produtores, muitos deles em processo de sucessão, a abertura dessa nova fronteira em região tão próxima do Paraná é a oportunidade que esperavam para aumentar a renda e crescer. Donos de pequenas áreas, muitos deles já recorrem ao arrendamento para ampliar seus espaços, utilizando modernas tecnologias, e não têm medo de encarar desafios.


Todos apostam no sucesso

O comprometimento das partes envolvidas é fundamental para o êxito do projeto. Pelo acordo, a Cocal entregou as terras já preparadas para o plantio de soja, aplicando em média, por hectare, 6 toneladas de calcário, 20 toneladas de torta de filtro e 350 quilos de fertilizantes químicos. Para cobertura do solo, os produtores plantaram milheto e, com o objetivo de garantir a eles toda a assistência e suporte técnico, a Cocamar realizou o cadastramento das áreas, contratou um engenheiro agrônomo exclusivo e ofereceu, por meio de sua corretora, um seguro diferenciado, que cobre uma produção de até 90 sacas por alqueire (37,1/hectare), garantindo que o agricultor seja ressarcido dos custos de produção em caso de intempérie. E para quem precisa, a cooperativa agilizou o contato com proprietários de maquinários, para a prestação de serviços de plantio e pulverização.

COMO FUNCIONA - O modelo de arrendamento prevê que até 84 sacas por alqueire (34,7/hectare), o produtor seja dispensado de pagamento. A partir daí, ele tem direito a uma participação de 60% do que for produzido, contra 40% da Cocal. De acordo com o gerente de negócios da Cocamar, Marco Antonio de Paula, esse formato é sustentável e possibilita mais segurança a todos. “Os riscos foram minimizados”, resume.

Cada agricultor recebeu 120 alqueires em média (290,4 hectares) e o cultivo de soja ocorre na mesma área uma única vez, ao longo de 5 anos, iniciando um rodízio para a reforma do canavial. Cinco anos é o tempo do ciclo produtivo da cana.


Produtores confiantes

Os cooperados que participam do projeto estão confiantes em uma boa colheita. Eles plantam a soja no intervalo entre as fileiras de mudas de cana – uma faixa de 30 metros. O cooperado Santo Rossi e os filhos Fabiano e João Paulo produzem grãos em Primeiro de Maio, na divisa entre os dois estados e a 95 quilômetros de Narandiba, onde eles foram convidados pela Cocamar a assumir um lote de 124 alqueires (300 hectares) . Essa área é mais que o dobro em comparação aos 53 alqueires (128 hectares) que cultivam no Paraná, onde a família começou a lidar com soja em 1973.

Santo Rossi lembra que o plantio de soja atrasou um pouco em Narandiba por causa da falta de chuvas, mas nos meses seguintes não faltou umidade e a previsão é de uma safra tão boa quanto a que ele e os filhos geralmente colhem em terras paranaenses. O engenheiro agrônomo César Augusto Nardi, da Cocamar, que assiste os produtores do projeto, confirma o bom estágio de desenvolvimento da soja. Conforme Nardi, as lavouras não haviam enfrentado, até meados de janeiro, nenhum problema preocupante de ataque de pragas e doenças.

No vizinho município de Iepê fica o lote de 125 alqueires (302,5 hectares) que Wilson Palaro e José Antônio Gesualdo, ambos de Floresta PR), tocam em sociedade. Eles vieram para o areião diretamente de um dos solos mais férteis e valorizados do Paraná. Palaro conta que sentiu “um frio na barriga” quando a Cocamar propôs a ele participar do projeto, por causa do solo arenoso. Agora, ele se diz recompensado: “a lavoura está um espetáculo”. Ao retirar um dos pés de soja ao acaso, Palaro contou 90 vagens, um número que, pelos seus cálculos, daria uma média de pelo menos 140 sacas por alqueire (57,8 sacas/hectare). Na visão do produtor, oportunidades como essas não podem ser desperdiçadas por quem precisa ampliar os negócios.

Produtores locais também estão participando, caso do cooperado João Carlos de Almeida, de Paraguaçu Paulista. Proprietário de 150 alqueires (363 hectares) em Rancharia, ele conduz 115 alqueires (278,3 hectares) em Iepê e também se diz satisfeito e confiante no sucesso do empreendimento. “Estou habituado a trabalhar em terras argilosas e arenosas, acredito que, como os demais, vamos nos dar muito bem por aqui.”