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O ano dos dias cinzentos e noites vermelhas

07.07.2020

Hulda tinha de 15 para 16 anos e morava com os pais e os irmãos numa pequena propriedade rural em Doutor Camargo, região de Maringá. Corria o ano de 1963 e ela se recorda como se fosse hoje: “Não se via a cor do céu, estava tudo cinzento. A fumaceira era tanta que os dias se passavam e aquilo não tinha fim. Até o sol havia perdido o brilho e dava pra admirar aquela enorme bola vermelha sobre as nossas cabeças”.

Foi um ano em que o Paraná enfrentou geada forte que esturricou os campos e São Pedro não mandava chuva. Bastaram pequenas queimadas e o fogo se alastrou igual notícia ruim. Os ventos espalhavam fagulhas fazendo surgirem novos focos. Com isso, perdeu-se o controle e tudo foi sendo devorado pelas chamas, inclusive as matas originais do futuro Parque do Ingá, em Maringá, que arderam por vários dias.

Atordoadas, as autoridades e a população faziam o possível, mas a estiagem só fazia aumentar os incêndios. Às pressas, abriam-se aceiros, em mutirões, para tentar impedir seu avanço. Todo mundo queria ajudar. Mas não havia jeito: fragmentos incandescentes voavam para cair logo adiante e, quando menos se esperava, o fogaréu já estava em marcha, promovendo destruição.

“O céu despejava fuligem o tempo todo, não podia deixar uma janela aberta”, conta Hulda, lembrando que, ao entardecer, o sol se punha de um lado do horizonte e, de outro, permanecia aquele clarão intenso, rivalizando com a escuridão. Uma vermelhidão que lembrava o amanhecer. Foi um ano estranho, de dias cinzentos e noites vermelhas. “Quando a gente ligava o rádio, só se falava no incêndio, dava medo, até parecia o final dos tempos.”

Segundo ela, seus pais Augusto e Querubina, assim como os agricultores da vizinhança, demoravam a pegar no sono, preocupados. Adormeciam com um olho fechado e outro aberto, prevenidos, deixando tambores e tinas cheios de água ao redor das casas.

Quando viu que era caso perdido, seu Augusto desesperou-se: escancarou as porteiras para o gado, o cavalo e os porcos irem embora. Pelo menos poderiam escapar. “Felizmente nossa propriedade sofreu poucos danos, mas teve gente que perdeu tudo”, recorda-se Hulda, uma jovem obstinada, que encarava qualquer serviço no sítio.

A vida não havia sido fácil para a família, que chegara ao Paraná em 1944, vindo de Minas. Foram parar na Caixa de São Pedro, em Apucarana, para trabalhar no café. De lá, seu Augusto foi sozinho derrubar o mato em Floriano ainda antes de Maringá ser município, empreitado pela Companhia de Terras. Suportou de tudo, menos o bote de uma cascavel. Só no outro dia é que o Waldemar Barbudo, o encarregado, apareceu para socorrer o coitado, deixando-o com o farmacêutico Mário Jardim. Ele poderia ter morrido de dor, de febre e inchaço, mas um casal de moradores, Antônio Carniel e sua mulher dona Encarnação, apiedaram-se e fizeram a caridade de recolhê-lo em sua casa. Augusto delirava, parecia estar entregando a alma. Mas foi melhorando e sobreviveu.

Não apenas aguentou o tranco como continuou derrubando mato, depois de trazer a família para Maringá. Ele e mais alguns abriram ruas, desmatando no braço o trecho entre as atuais avenidas São Paulo e Paraná. Ele também trabalhou na serraria dos Phillip, passou por Campo Mourão e, quando conseguiu juntar um dinheiro, aplicou tudo em pequenos lotes de terra. Foi agricultor em Doutor Camargo e depois em São Jorge do Ivaí. Até que, já com idade, cansados, ele e a esposa largaram mão dessa vida, mudando-se para aproveitar o final de seus anos no merecido sossego em Maringá.

Dona Querubina, que sempre foi da roça, era daquelas cozinheiras que sabia honrar a tradição mineira. Fazia qualquer tipo de comida com um tempero só dela, pães irresistíveis, bolos e doces cuja gostosura muita gente passou a encomendar para seus casamentos.

Essas recordações Hulda, mãe de três filhos, perpetuou em um livro que resgata a saga de sua família. “Rumo ao Sul” deixa registrado para as gerações do presente e do futuro que a gente daquela época não se curvava aos desafios. “Era forte igual a uma figueira que, povoando a floresta, estava também sujeita a ter que enfrentar uma queimada”, diz. Por essas belezas da vida, quando alguém acredita que o fogo poderia aniquilar uma espécie assim, eis que, após uma boa chuva, ela volta a rebrotar, faceira, até se encher outra vez de folhas, como se nada tivesse acontecido. E, em pouco tempo, assim como o bravo povo pioneiro da região, estará pronta pra outra.

Texto: Rogério Recco
Entrevistada: Hulda Ramos (integrante da Academia de Letras de Maringá)