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Os dias em que uma chuva sinistra varreu os cafezais de Maringá

07.07.2020

“Sabe quando o céu fica escuro antes de uma chuva forte? Pois era assim que acontecia”. A lembrança de dona Antônia Laquanetti Cordiolli, pioneira de Maringá, região para onde ela e dez irmãos foram trazidos pelos pais José e Petronilha em 1944, para desbravar uma propriedade na gleba Guaiapó, tem a ver com um tipo de tempestade sinistra que aterrorizava os produtores rurais daqueles tempos.

Era de apavorar mesmo. “Vinha aquela nuvem preta mas não era de chuva não, era de gafanhotos”, lembra, dizendo que os insetos baixavam aos milhares na propriedade deles e na vizinhança, fazendo um barulho infernal que parecia o crepitar de um grande incêndio na floresta. O sítio ficava a 3 quilômetros da vendinha que está lá até hoje. Por onde iam passando, ficava um rastro de destruição.

Enterrá-los vivos - “Eles pelavam um pé de café em cinco minutos, não deixavam uma só folha verde”, afirma dona Antônia, que tinha lá seus dez anos e perece ainda ver a família inteira correndo para tentar combater a praga, em vão. “Meus pais e uns irmãos pegavam folhas de coqueiros e iam batendo com força nos cafés para derrubar os bichos. Outros vinham atrás rastelando aquela bicharada feia pelo chão e outros cavavam valas para enterrá-los vivos, era o único jeito de matar.”

Serviço ingrato. Quanto mais lutavam contra os insetos – que “pareciam umas cavaletas, pretas e magras” – outros tantos iam aparecendo e a batalha durava dias. Ao final, o café ficava arrasado.

Rancho de palmitos - Os Laquanetti tinham 20 mil pés plantados, metade de cada lado da estrada. Oriundos de Pitangueiras (SP), foram um dos primeiros a chegar à região onde, por sorte, o sítio vizinho, de João Spósito, já tinha uma parte desmatada. Só conseguiram adentrar nas suas terras, ainda inacessível por causa do matagal, atravessando o sítio dele. Como quase todo mundo que chegava por aqui, a família derrubou o paredão de árvores no machado e no traçador e improvisou um rancho de palmitos cortados, onde viveu por vários anos. “As toras, espalhadas por todo lado, sempre ia alguém comprar.”

Saudades - Mesmo enfrentando tais insetos, geadas e um trabalho braçal exaustivo, dona Antônia diz ter saudades dos tempos do sítio. Com o tempo, as coisas foram se ajeitando. “Tinha muita fartura e os bezerros eram tratados na mamadeira e vinham atrás da gente feito cachorros.” Ela só não gosta de lembrar quando tinha que levar as marmitas para o pessoal na roça e as vacas corriam atrás. Quanto aos estudos, começou meio tarde: “Fui fazer o grupo, ali perto, quando já era criança grande, minha primeira professora foi dona Maria Geraldina Mesti”.

Com o casamento dos irmãos, foi sendo formada uma colônia de casas no sítio, que ganhou também uma tulha. “De dois em dois meses a gente esvaziava a tulha e fazia um bailão lá, com sanfoneiro e tudo, ia até as quatro da manhã”, sorri.

Na Vila - O Maringá Velho, primeiro povoamento da cidade, ela conheceu quando não havia meia dúzia de casas. Ficava distante do Guaiapó, mas a família ia até lá a pé. “Fiz minha primeira comunhão na Capela Santa Cruz e fui andando com um vestido branco. Quando cheguei, por causa da poeira, estava todo sujo.”

O pai se tornou amigo do primeiro prefeito, Inocente Villanova Júnior, a quem presenteava com frutas. Menina ainda, a filha o acompanhava de quando em vez. Um dos lugares prediletos onde paravam, lembra, era o Bar do Paulo, na Vila Operária. “Faziam lá um sanduiche de pão com sardinha que a gente lambia os beiços.”

Seu pai também fez amizade com o padre Emílio, o primeiro sacerdote do município, que morava em uma fazenda. “Ele levava milho em grão e voltava com fubá”, recorda-se dona Antônia. Era um tempo bom, garante. Ela se casou em 1962 com Laurindo Cordiolli, é mãe de seis filhos e tem uma porção de netos, aos quais gosta de contar histórias de antigamente.

A dos gafanhotos é sempre lembrada. Quando moravam no sítio, afirma, ninguém dava muita bola pra onça ou cobra, mas da praga que despencava do céu não era bom nem falar, pois seu ataque equivalia a uma geada daquelas. “Eu me lembro que isso aconteceu uma ou duas vezes e ficou marcado na memória da família.” Até hoje, quando os filhos, agregados e netos se reúnem e alguém se queixa de alguma coisa, ela intervem com sua autoridade: “Você reclama porque nunca viu o estrago que faz uma nuvem de gafanhotos. Coisa terrível".

Texto: Rogério Recco – Colaboração: Marcos Cordiolli

Imagens: Acervo de família e Revista Café

(a foto com os gafanhotos foi extraída do site DiárioX e se refere a um ataque recente dos insetos na África)