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Um povo trabalhador, que só queria progredir

08.07.2020

Marido e mulher, Martins e Eliza se mudaram em 1939 da região de Bauru (SP) para a atual Cambé, norte do Paraná, cidade que na época tinha um nome esquisito e quase impronunciável para alguns: Nova Dantzig.

“A gente falava Nova Dança”, recorda-se Neuza, a filha mais velha, abrindo um sorriso. Tata, como os pais a chamavam, foi levada para lá aos quatro anos e aos seis já ajudava na roça. Eles sonhavam progredir no eldorado paranaense de terras gordas.

Trabalhadores rurais, Martins e Eliza ganhavam a vida cultivando lavoura para os outros. Eram porcenteiros, aqueles que derrubavam o mato e formavam o café em troca de uma parte da produção.

A família foi crescendo e quando Tata tinha doze anos, em 1947, o pai apostou todas as suas economias em um pequeno sítio em Maringá. Começou, então, tudo de novo: o desmate e o plantio de café, mas agora em terra própria, um progresso e tanto.

O sítio ficava perto de Iguatemi e, para habitá-lo, o pai ergueu um rancho com troncos de palmitos e móveis de caixotes. Era como quase todo mundo fazia ao chegar.

Foi assim que começaram sua história na tal Maringá, “um lugar que tinha nome de música e todos falavam bem”, relembra. Iniciaram o criame de porcos, galinhas, vacas, fizeram horta e pomar. Ali, também, foi nascendo uma fiada de filhos: ao todo, contando os de “Nova Dança”, nove mulheres e quatro homens.

Firmes desde cedo no batente, a jovem e os irmãos mais crescidos iam ajudar, mas bem advertidos. “A gente olhava bem antes de puxar a enxada debaixo do pé de café, às vezes podia vir junto uma cobra enrolada e pronta para dar o bote”, ela conta e até se arrepia com isso.

Lembrança ruim também de quando ia descascar milho no paiol e, imprudente, enfiava a mão por entre as espigas, sem avaliar o perigo. Até que, certo dia, sentiu o ardume nos dedos e saltou para trás ao se ver ali diante de uma aranha das grandes.

Em compensação, quantas recordações boas aquelas da casa de madeira que construíram depois, em que a água para o consumo descia por uma calha, um luxo. Todas as noites, o pai reunia os filhos à mesa, clareada pela lamparina, para alfabetizá-los. “Meu pai tinha o quarto ano primário e foi com ele que aprendi a ler e a escrever. Em escola, mesmo, nunca botei os pés, porque era longe.”

Como esquecer as comidas preparadas por sua mãe, aquela fartura toda, a polenta com leite, o carinho recebido dos nonos maternos Eugênio e Ema que foram morar com eles, a amizade fraternal entre os vizinhos, as compras na sortida venda dos Planas, as missas e as rezas que se faziam aos santos padroeiros, as festanças no terreiro e as prosas domingueiras sob o céu azul, tão azul quanto os olhos arrebatadores do moço bonito e também paulista que apareceu certo dia por lá para cuidar de uma propriedade que o pai havia arrendado.

Deu casamento. E foi na catedral de Maringá, que em 1953 ainda se chamava Santíssima Trindade: num dia de muita chuva, o carro que conduzia a noiva acabou atolando pouco antes de chegar e o coitado do padrinho, seu condutor, desceu e caiu na lama. Armando e Neuza, mulher formosa de sangue italiano e delicados traços de nativa, começariam a sua jornada e aquela dura vida de porcenteiros: desmatar e plantar café na terra gorda.

Formaram lavoura e foram trazendo ao mundo os primeiros de uma fiada de nove filhos, cinco mulheres e quatro homens, nascidos em Maringá e Floraí, onde, enfim, conquistaram o próprio sítio e eram de todos queridos na comunidade.

São fatos que se repetiam entre os pioneiros desse canto do mundo e alguns que Tata até se emociona ao relembrar. “Os filhos pequenos ficavam sumidos no meio do cafezal e, naquela angústia, o único jeito era fechar os olhos e implorar a Deus pra cuidar.” Quando abria os olhos, como que por encanto, eles estavam de volta. Deus ouvia e nunca negava o apelo feito com a devoção daquela gente simples e cheia de fé, que labutava no café com a intenção de progredir.



Texto: Rogério Recco

Entrevistada: Neuza Belizário Furlan